Dentro do paganismo celta, um dos movimentos menos conhecidos, mas que vem se tornando cada vez mais difundido é o Sinnsreachd, do Gaélico Escocês, ‘Costume dos Ancestrais’. A seguir, uma tradução do site oficial do movimento Sinnsreachd, o An Cónaidhm na dTuath Gaelach, ou A Confederação Gaélica Tribal. Para ler o original, acesse: http://sinnsreachd.org/

 

 

 

 

Sinnsreachd

 

 

 

Publicado por An Cónaidhm na dTuath Gaelach

 

Tradução por Marcela Badolatto

 

 

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

 

 

 

 

Sinnsreachd é um movimento cultural gaélico politeísta tribal e religioso. O Sinnsreachd fundamenta seu cerne cultural, social e doutrina religiosa sob os costumes e superstições existentes na Irlanda e Escócia rurais, combinado com encarnações modernas de sociedade, cultura e leis costumeiras baseadas naquelas que existiam na Irlanda e Escócia antes da chegada do Cristianismo. Enquanto observadores externos por vezes rotulam o Sinnsreachd como uma religião “neopagã”, seus praticantes acham este termo altamente ofensivo devido à associações com religiões sincréticas modernas como a Wicca, que são vistas como fés auto-indulgentes, o que é anátema à ideologia Sinnsreachd.

 

 

Sinnsreachd é uma palavra em Gàidhlig (gaélico escocês) que significa, no contexto, “Costumes dos Ancestrais”, apesar de Sinnsearachd ser um termo mais específico que também é usado. Partidários do Sinnsreachd referem à si próprios como Sinsearaí, Sinsearaithe no plural, usando a palavra em Gàidhlig para a crença e em Gaeilge para o seguidor da crença. O termo Sinsreach possui múltiplos significados dependendo do contexto, incluindo sucessão, ancestralidade, etc., mas neste contexto é usado para referir-se aos costumes dos ancestrais de alguém e implica que este alguém siga esses costumes.

 

Membros das crenças Sinnsreachd não aceitam os rótulos de “pagãos” ou “neopagãos”, preferindo que sua fé seja simplesmente chamada de Sinnsreachd ou Sinnsearachd. Eles descrevem o Sinnsreachd como uma religião cultural politeísta, referindo-se aos vários deuses Sinnsreachd e sua inseparável relação entre a cultura e as crenças religiosas que seguem. Enquanto eles acham o termo “bárbaro” aceitável em certas medidas, eles estão rapidamente percebendo que esse termo é mais acuradamente usado hoje para descrever religiões politeístas Gemânicas ou Nórdicas.

 

 

 

História

 

 

As origens históricas do Sinnsreachd são difíceis de definir devido a uma série de razões, não menos do que a falta inicial de organizações ou literatura. Diferente de religiões Germânicas similares como o Ásatrú, os praticantes do Sinnsreachd não se organizaram ou tornaram-se uma entidade pública até o começo de 1990, e, assim, há pouco para apontar as origens exatas da religião. Parece que o Sinsreachd desenvolve-se independentemente e através de linhas similares em vários lugares, incluindo Escócia, Estados Unidos e Austrália, a partir do final de 1970, progressivamente. Muito disso parece ter sido relacionado com ou inspirado pelos revivalistas religiosos Germânicos contemporâneos e pela espiritualidade semi-Celta que veio a tona naquela época, apesar do movimento Sinnsreachd não ser diretamente baseado neles, tampouco.

 

Sendo que o Sinnsreachd não tem sido uma religião historicamente centralizada, não há um único corpo organizado para o qual alguém possa se voltar para conseguir um entendimento de quando isso começou e por que. Praticantes declaram que seus Deuses os inspiraram a achar sua herança e fé, enquanto outros declaram que parece ter sido uma versão Gaélica temperada dos revivalistas Germânicos, ocorrendo na metade/fim do século XX.

 

 

 

 

Sociedade e Cultura

 

 

Sinnsreachd é uma religião que envolve elementos culturais seculares, embora seja, frequentemente, dita, ao invés, como uma cultura com elementos religiosos entrelaçados à ela. Em uma análise objetiva, parece ser uma divisão de, aproximadamente, 60% cultura, 40% religião. Não há um corpo central que fiscalize ou dite os costumes, cultura ou crenças religiosas do Sinnsreachd, mas os praticantes reconhecem uns aos outros baseados em sua aderência às doutrinas culturais e religiosas que estão nas mesmas linhas gerais.

 

Socialmente, o Sinnsreachd é uma fé tribal, agrupado em pequenos a médios grupos baseados em famílias no estilo tribal. O menor desses grupos é a ‘família’, chamada teaghlach, plural teaghlaigh, englobando uma família de pessoas vivendo sob um mesmo teto ou em uma família geral como uma fazenda. O próximo grupo maior é o grupo de ‘parentes’, ou fine, finte no plural (plural fineachan em Gàidhlig), que compreende todos em um grupo familiar particular ligados pelo sangue ou casamento de um ancestral comum. Diferentes variedades desses grupos de parentes existem, mas a versão mais comumente vista é o dearbhfine, dearbhfhinte no plural (plural dearbhfineachan em Gàidhlig), que são todas as pessoas que descendem de um ancestral comum acima de quatro gerações.

 

O maior grupo organizacional do Sinnsreachd é chamado tuath, tuatha no plural, ou clann, clanna no plural. A tuath tem sido, a grosso modo, equacionada para significar “tribo”, e é considerado assim um grupo com todos os membros da fé Sinnsreachd em um corpo coeso vivendo em uma área geográfica em comum. Poderia ser considerado o equivalente Sinnsreachd de uma diocese, mas alguns iriam discutir essa declaração.

 

A organização social destes corpos é compreendida de classes hierárquicas de pessoas, geralmente remetendo a castas. Essas castas são baseadas na ocupação e posição dentro da tribo. Exemplos de tais castas incluiriam artesãos, guerreiros, poeta, religiosos, preservadores da sabedoria, fazendeiros, etc. A liderança é designada à um chefe, chamado taoiseach ou ri, e uma forma de parlamento tribal montado com o “cabeça” de cada grupo parental, chamado ceann fine ou ceanna fine no plural (cinn fineachan em Gàidhlig).

 

 

Crenças Religiosas

 

 

A origem da teologia, cultura, misticismo e costumes do Sinnsreachd vem de uma diversidade de fontes, incluindo costumes e superstições familiares, tradições ainda encontradas em comunidades Gaélicas da Irlanda e Escócia, costumes e tradições registradas nesses países no século XIX e começo do século XX, assim como dos imigrantes falantes de Gaélico nas Américas e Austrália, leis costumeiras encontradas dentro das Fénechas (também conhecidas como Leis Brehon), e de histórias religiosas e sabedoria registradas em manuscritos do Leabhar na Núachongbála (O Livro de Leinster), Leabhar na nUidre (O Livro da Vaca Parda), Leabhar Baile na Mhota (O Livro de Ballymote), Leabhar Mor Mhic Fhir Bhisigh (O Grande Livro de Lecan), Leabhar Buidhe Lecain (O Livro Amarelo de Lecan) e o Leabhar Feirmoithe (O Livro de Fermoy).

 

Os membros do Sinnsreachd compilam esses elementos através de décadas de pesquisa e os compilam em uma fé coesa, modernizando e descristianizando as leis, tradições e histórias religiosas e costumes encontrados nos já mencionados manuscritos. O resultado final é uma interpretação moderna da cultura e crenças gaélicas da Idade do Ferro.

 

As bases da fé Sinnsreachd são universais, porém muitos dos detalhes menores podem diferir de organização para organização. Essas bases incluem a veneração dos Deuses Tuatha de Dannan, particularmente as deidades centrais Nuada, Lugh, an Mórríghan, Dana/Danu, Goibhniu, Manannan Mac Lír, Dian Cecht, an Dagda, Bríd (também conhecida como Brighid) e Bóann. Outros aspectos universais do Sinnsreachd são as celebrações dos quatro festivais do fogo – Samhain, Imbolc (ou Oímelc), Bealtaine e Lughnasadh – como festas e celebrações tribais, a aderência a um código de éticas e morais explicadas em vários poemas chamados Tríades, a crença em um pós-vida e reencarnação, veneração dos espíritos ancestrais e reconhecimento dos espíritos dos três reinos considerados sagrados pelo Sinnsreachd – Terra, Mar e Céu.

 

 

Políticas

 

Organizações Sinnsreachd possuem membros que transpõe todo o espectro político das nações em que estão localizados. A maioria dos participantes são membros dos já mencionados grupos tribais e praticam sua fé comumente. Eles são, no entanto, um número de auto-identificados ‘praticantes solitários’ que praticam sua religião sozinhos com suas famílias, muitas vezes devido à falta de um grupo tribal próximo. Apesar das diferenças entre crenças e políticas, o denominador comum entre os aderentes ao Sinnsreachd são os objetivos de reviver e praticar as bases da cultura e crenças dos Gaélicos pré-cristãos.

 

Praticantes de Sinnsreachd são geralmente tolerantes sobre muitos problemas, parecendo preferirem uma abordagem de ‘viva e deixe viver’, mas há a visão extremamente negativa sobre sexismo (contra qualquer gênero) e racismo. Praticantes de Sinnsreachd parecem não ter preconceitos de um caminho ou outro no qual estão inseridos aqueles que escolheram para lideres ou em posições baseadas no gênero. Do mesmo modo que muitas críticas foram feitas aos praticantes de Sinnsreachd como sendo obsessivos pela linhagem sanguínea, não há doutrina ou uma postura fixa sobre linhagem sanguínea ou mesmo sobre herança étnica. Ao contrário, eles declaram que a cultura importa mais que o sangue, e que qualquer um que siga sua cultura é uma parte disso, independente da etnia.

 

UM ENSAIO SOBRE O SACRIFÍCIO

Por Erynn Rowan Laurie

Tradução Marcela Badolatto
Todos os direitos são reservados à autora. Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a autorização da mesma.

 

Uma das funções primárias do sacrifício é a renovação do cosmos. No mito nórdico, nós temos, se me recordo corretamente, o gigante Ymir que é morto e cujo corpo cria o cosmos. Isso é paralelo à cosmologia Hindu, onde o sacrifício feito pelos Brâmanes renova um ser divino, cósmico, cujo corpo cria o universo. Embora nós não tenhamos um mito Celta da criação preservado em arquivos escritos e orais, creio que seria razoável pensar que o mito deles provavelmente seguisse esse mesmo padrão.

Se a criação requer morte e desmembramento para ocorrer, então seria de se compreender que somente o sacrifício de algo vivo seria capaz de realizar um sacrifício cosmológico. Isso não quer dizer que sacrifícios monetários, ou outros sacrifícios, não possam ser feitos sob outras circunstâncias. Eles obviamente eram feitos, e a partir do que outras pessoas aqui disseram, esse método continua sendo usado, embora mais em um contexto de presente para os Deuses do que de renovação do cosmos. Mauss diria que esse tipo de presente sacrificial cria um relacionamento mútuo entre os Deuses e a humanidade que requer um presente recíproco dos Deuses de inescassez de comida, abrigo e de outras substâncias necessárias à sobrevivência. Mas como eu havia dito, esses presentes trocados não renovam o cosmos em um sentido teológico. Eles servem para renovar laços de comunidades. Uma importante tarefa, para ser clara, mas não do ponto do sacrifício cosmológico.

Alguns antropólogos e historiadores têm especulado que ao sacrifício de animais seguia-se um período de sacrifícios de humanos como veículo da renovação cósmica. Nós sabemos que os Celtas sacrificavam prisioneiros de guerra e ocasionalmente outros humanos em alguns rituais, então eles não abandonaram completamente aquela fase de sacrifício. Creio que, nesse caso, talvez o que estejamos vendo sejam presentes para os Deuses, ou a troca de uma vida por outra no campo de batalha no caso de prisioneiros de guerra. Hipoteticamente falando, os guerreiros de “nossa tribo” eram bem sucedidos e poucos eram mortos, mas a guerra é uma arena de morte e certa perda de vida é esperada ou talvez jurada como uma parte da celebração da vitória, então prisioneiros da “tribo deles” eram sacrificados como uma substituição por “nossos” guerreiros ou como presentes para a deidade dos guerreiros. Outros sacrifícios humanos podem servir como mensageiros para os Deuses, carregando pedidos e informações que não podem ser confiados a oferendas menores. Um sacrifício humano, particularmente como um sacrifício de edificação, pode servir como guardião espiritual para a estrutura sendo construída. Mas em certo ponto, o sacrifício de animais parece ter se tornado um substituto para o sacrifício humano em cerimônias de renovação do cosmos, assim como em outros tipos de sacrifícios, e então isso parece ter sido precedente para mudanças consideráveis nesse tipo de ritual. Nós não estamos, então, buscando “uma desculpa para parar de executar sacrifícios”, mas sim um caminho teológico válido para transformar o sacrifício, mantendo ao mesmo tempo seu foco e impacto, como foi feito na suposta transformação de sacrifício humano para animal. Acredito que podemos discutir uma substituição valida para o corpo e alma de um animal.

Sabemos da história de Miach e Airmid, e da descrição de Alexei do herbalismo Bretão, que ervas eram associadas a diferentes partes do corpo – uma erva para cada articulação e tendão, assim era. Podemos dizer que o corpo pode ser criado, construído de ervas. Blodwedd é um exemplo de ser humana viva, magicamente criada a partir de nove tipos de ervas. Também sabemos de um texto médico galês medieval, e da tradição irlandesa, que o corpo é relacionado com o universo no pensamento Celta. Os olhos podem ser as estrelas, o sol ser a face, a respiração ser o vento, as rochas como ossos, a água como sangue, o solo como a carne, etc. Eu diria que através dessas associações, um corpo “humano” vivo pode ser criado de certas plantas ritualmente apropriadas para servir como veículo da renovação cósmica. Nesse caso, a morte e desmembramento do “corpo herbal” serviria como a força viva que é a origem da criação cósmica.

O sacrifício de plantas não deve ser invalidado como sacrifício de eficácia espiritual. As plantas têm espírito consciente, não menos que humanos ou animais. De fato, eu diria que as plantas são mais importantes que humanos ou animais no sentido biológico, pois sem plantas, a energia do sol não pode ser transformada em comida e nenhuma vida poderia existir sem elas. As plantas podem existir sem nós, mas sem elas não há possibilidade de vida animal independente. A força vital de uma planta pode, então, ser considerada tão pura e aceitável para o sacrifício como a vida de uma vaca, ou de um ser humano. Do ponto de vista da primazia, elas deveriam ser consideradas mais aceitáveis, mais puras, já que elas estão mais perto da fonte primordial da energia solar do que nós. Plantas individuais carecem somente da construção social do corpo humano completo para serem um aceitável substituto para o ser humano. Mas como nós vimos, isso pode ser feito através do ritual.

A questão torna-se, então, que plantas seriam apropriadas como sacrifício? Quantas, e o que elas devem simbolizar? Há diversas maneiras de abordarmos essa questão. Uma delas é examinar a lista das nove ervas das quais Blodwedd foi criada, sabendo que, juntas, elas serviram para criar um ser humano vivo. Nove, é claro, é um número ritual básico e significativo dentre o povo Celta. Ele é um número de perfeição e totalidade. Acredito que, sem levar em consideração que critério utilizamos para estabelecer uma lista de plantas apropriadas, elas deveriam ser nove em número.

Uma aproximação que poderíamos usar para escolher as plantas apropriadas é ver suas funções. Como um exemplo, plantas são usadas como comida (aveia), como remédio (dedaleira), como fibra (linho), como combustível (amieiro) e para alterar propriedades mentais (beladona). Podemos examinar a sabedoria herbal dos Celtas e escolher plantas dessas categorias que também representem as várias partes do corpo para usar como sacrifício. Plantas usadas como enteógenos me parecem perfeitamente apropriados para usar, simbolizando a alma da existência cósmica, por exemplo, ou para simbolizar a cabeça que é o assento da alma, e a abóbada dos céus. Plantas comestíveis podem simbolizar a carne. As medicinais podem servir para simbolizar diferentes partes do corpo, já que elas são usadas para lidar com diferentes órgãos e partes do corpo. Plantas fibrosas podem simbolizar o cabelo, ou a pele cobrindo o corpo. Plantas que servem como combustível podem representar a centelha da vida, mas elas podem, claro, ser usadas para queimar o sacrifício durante o ritual, então talvez elas não sejam necessárias na construção do corpo de ervas.

Fazendo esse tipo de sacrifício, acredito que as plantas devam ser frescas. A força vital deve estar nelas ainda, de modo que o sacrifício seja útil ou válido. Saindo e comprando raízes e folhas secas, elas simplesmente não contém as mesmas energias que cultivar ou colher as plantas apropriadas. Não pode ser um sacrifício de vida e espírito se o espírito e o poder da vida fresca se foi das plantas seis meses atrás. A falta de espírito invalidaria o sacrifício como um ritual significante, intencionando nos conectar com a necessidade de uma morte imediata e sensível em preparação para a criação cósmica. Existe pouco impacto emocional em queimar a poeira seca das folhas, enquanto a queima de plantas colhidas frescas nos conecta com a morte do ser verde. A seiva da vida deve estar correndo dentro delas, preferivelmente tendo sido colhidas em um ritual de não mais de um dia antes do sacrifício. Como o sacrifício de um animal ou ser humano, as plantas usadas devem estar livres de manchas, assim o mundo quando renovado será da mesma forma perfeito em corpo e potencial.

Embora na sabedoria Celta as associações de plantas com o corpo seja um conhecimento essencial, creio que também temos que considerar as implicações em tentar sacrificar plantas que não crescem naturalmente no solo nativo, sem contar a dificuldade de obter materiais frescos de ervas não-nativas. Que plantas locais carregam o mesmo significado simbólico que as plantas rituais da Europa Celta? Como Celtas modernos, espalhados por todo o globo e nascidos de diferentes bases étnicas, acredito que devemos renovar o cosmos local através do uso de plantas nativas para este tipo de sacrifício. Isso necessita observação atenta da sabedoria local das plantas, e o desenvolvimento de relacionamentos com os espíritos das plantas nativas, assim começamos a entender como elas se encaixam no corpo herbal. A criação de Blodwedd em Minnesota será diferente da criação em Gales, diferente também em Sydney ou em Vladivostok. Se nossa espiritualidade inclui uma profunda e verdadeira conexão com a terra em que vivemos, devemos levar essas coisas em consideração e desenvolver a teologia do lugar e o que Gary Snyder se refere como reabitação. A essência da terra onde vivemos deve penetrar em nós física e espiritualmente, deve nos conectar com os espíritos do local.

Alguns rituais necessitariam ser divididos para colher as nove diferentes plantas escolhidas e “dá-las à luz” juntas como um ser vivo, integral no sentido de um corpo cósmico e divino. Teríamos que transformá-las de um grupo separado de seres-planta no corpo divino do sacrifício, para unificar seus espíritos em uma única alma perfeita. Isso, é claro, não é necessário no caso de animais ou humanos, porque eles já são um único, separado, corpo e força vital.[1] O encantamento que cria Blodweed deve ser falado, assim como era. Deste ponto, o sacrifício pode preceder com o ritual de morte e desmembramento, com a queima das plantas para liberar o espírito-corpo e suas partes componentes no ato de renovação cósmica.

A próxima questão é: quem lida com esse tipo de sacrifício. Na sociedade Celta, os Druidas clamavam que eles haviam criado o universo, e através dessa forma de sacrifício, pode ser dito que eles de fato o fizeram. Druidas atuavam como sacerdotes sacrificadores de acordo com os Gregos e Romanos que os encontraram na Gália, e eram capazes de banir indivíduos do sacrifício se eles violassem as leis da tuath.[2] Entre os Hindus, são os Brâmanes que dirigem esses sacrifícios. O sacrifício cosmológico realmente é algo que pode ser conduzido em um molde igualitário, com qualquer celebrante de fora capaz de representar o papel do sacerdote/sacerdotisa sacrificador? Qualquer um que esteja ritualmente purificado será aceitável como sacrificador? Deverá o sacrificador ser alguém que nunca matou em batalha? Um que não tenha violado certas leis da terra? Se pessoas podem ser banidas da participação do sacrifício como observadores, isso mantém a razão de que alguns crimes certamente desqualificariam pessoas de realmente fazerem o sacrifício. Se essas coisas são importantes, deve ser exigido que aquele que regerá o sacrifício seja alguém identificado como Druida? Alguém que tenha, no mínimo, estudado a sabedoria e teologia celta o bastante para entender as implicações do sacrifício e da renovação? Se for um sacrifício animal ao invés de um sacrifício herbal, é também essencial que o sacrificador seja experiente na execução de animais, para que o sacrificado não sofra desnecessariamente.[3] É óbvio que algum treinamento seria, no mínimo, exigido para o efetivo sacrifício de um animal.

Qual deve ser, no ritual, o estado mental requerido do sacrificador? Obviamente, há muito mais nisso do que a ação de sacrificar. Realizar o ritual sem a intenção adequada e o estado de purificação espiritual adequado, seria mais sacrilégio do que sacrifício. Alcançar a intenção e o estado de pureza adequados é provavelmente trabalho de muitos anos de treinamento e meditação, e uma certa soma de ascese. Ao menos, deve ser capaz de conduzir o ritual enquanto mantém o devido estado mental e visualizações, sem cair em distrações. A forma externa do ritual deve ser feita impecavelmente, sem ler roteiros em pequenos papéis. A intenção e o foco dos assistentes e das testemunhas do ritual devem ser igualmente puros, no entanto, talvez, não tão rígidos quanto o estado daquele que irá fisicamente realizar o sacrifício. Qualquer coisa a menos pode danificar a renovação, se seguirmos a lógica do próprio ritual. Se levarmos isso a sério, essas considerações embatem a idéia de que qualquer um que queira pode realizar um sacrifício cosmológico, seja animal ou herbal, sem antes praticar intensamente ambas técnicas, externa e interna, e estudar as implicações teológicas.

 

 


[1] N.t.: Não confundir com a popular doutrina pertencente a algumas religiões de que plantas (ou animais) possuem alma coletiva. A autora deixa claro que as plantas, tanto quanto humanos e animais, possuem alma individual, no entanto, carecem da composição corporal semelhante, necessária ao sacrifício, já que esse mesmo sacrifício é uma substituição ao sacrifício humano.

 

[2] N.t.: Tuath significa tribo.

 

[3] N.t.: Dentre as comunidades Reconstrucionistas Celtas, especialmente as rurais, o sacrifício animal não foi banido, como no neo-druidismo em geral. Muitos RCs sacrificam seus animais em rituais, honrando suas almas, especialmente por não concordarem com os atuais métodos de abate, já que só se sacrificam os animais que servirão de alimento para a comunidade.

Olá a todos e sejam bem-vindos. Este é a primeira postagem do Coille Dharaich, e aproveitando o festival de Lùnasdal, para inaugurar o blog, escolhi colocar aqui a letra e tradução de uma música em Gàidhlig (gaélico escocês). Essa canção foi escrita por Murchadh MacPharlain (ou Murdo MacFarlane, também conhecido como Bardo Mealbhoist) nos anos 70. Ela chama-se Cànan nan Gàidheal, Linguagem dos Gaélicos, e exalta a cultura e língua escocesas.

Cànan nan Gàidheal

Tradução por Marcela Badolatto

Gaìdhlig

Português

Cha b’e sneachda ’s an reothadh o thuath

Não foi a neve ou geada do norte

Cha b’e an crannadh geur fuar on ear

Nem o cortante, seco vento leste

Cha b’e an t-uisge ’s na gaillionn on iar

Nem chuvas e tempestades ocidentais

Ach an galar a bhlian on deas

Mas a praga que veio do sul

Blàth, duilleach, stoc agus freumh

Para destruir flor, folha, caule e raiz

Cànan mo threubh is mo shluaidh

A língua do meu povo e da minha raça

Sèist

Refrão

Thig thugainn, thig cò’ ruim gu siar

Venha a nós, venha comigo para o oeste

Gus an cluinn sinn ann cànan nam Fèinn

E ouça a linguagem dos Heróis

Thig thugainn, thig cò’ ruim gu siar

Venha à nós, venha comigo para o oeste

Gus an cluinn sinn ann cànan nan Gàidheal

E ouça a linguagem dos Gaélicos

Nuair chithear fear fèilidh ’s a’ ghleann

Se um homem de kilt for visto no vale

Bu chinnteach gur Gàidhlig a chainnt

Certamente o Gaélico era sua língua

Nuair spìon iad a fhreumh às an fhonn

Então ele arranca suas raízes da terra

An àite Gàidhlig tha cànan a’ Ghoill

E recoloca o Gaélico como a linguagem do Goill[1]

Is Ghaidhealtachd creadhal nan sonn

E as Terras Altas, uma vez berço do valente

‘S tìr “mhajors” is “cholonels” ‘n-diugh innt’

É agora a terra de majores e coronéis forasteiros

Thoir a-nuas dhuinn na coinnleirean òir

Tirando o candelabro de ouro

‘S annta càraibh na coinnlean geal, cèir

E colocando as velas brancas

Lasaibh suas iad an seòmar a’ bhròin

Ilumina-os no quarto de luto

Taigh aire seann chànan a’ Ghàidheil

Guarda uma trilha para a antiga língua dos gaélicos

Se siud o chionn fhad’ thuirt an nàmh

Isso é o que o inimigo disse uma vez

Ach fhathast tha beò cànan a’ Gàidheal

Mas a linguagem dos gaélicos continuou a existir

Ged a theich i le a beath’ às na glinn

Apesar dele fugir de sua existência nos vales

Ged na cluinnear a-nis muigh i san Dùn

E não poder mais ser ouvido no Dùn[2]

O Dhùthaich Mhic Aoidh fada tuath

Da distante província de MicAoidh[3] no norte

Gu ruig thu Druim Uachdair nam bò

Descendo para Druim Uachdair[4] dos gados

‘S iathadh nan Eileanan Siar

Mas nas Eileanan Siar[5]

Si fhathast ann ciad chainnt an t-slòigh

Ele se mantém como a primeira linguagem do povo


[1] Goill ou Gall, é a palavra no gaélico escocês que designa um habitante das Galldachd (Terras Baixas) ou então um escocês que não fala gaélico.

[2] Dùn significa colina, monte, e geralmente é usado em nomes de cidades na Escócia, como Edimburgo (Dùn Èideann)

[3] Dùthaich MhicAoidh, anglicanizado como província Mackay, é o nome dado em gàidhlig às regiões norte e noroeste de Sutherland, estado localizado nas Gàidhealtachd (Terras Altas). Dùthaich MhicAoidh, (também tradicionalmente conhecido em inglês como Strathnaver) recebeu este nome por ter sido habitação de um grande e poderoso clã, o Clann MhicAoidh, ou Clan Mackay.

[4] Druim Uachdair é uma região entre o norte e o sul das Gàidhealtachd centrais, conhecida em inglês como Drumochter.

[5] Eileanan Siar é o nome para as Ilhas Ocidentais, localizadas na costa noroeste da Escócia.