UM ENSAIO SOBRE O SACRIFÍCIO

Por Erynn Rowan Laurie

Tradução Marcela Badolatto
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Uma das funções primárias do sacrifício é a renovação do cosmos. No mito nórdico, nós temos, se me recordo corretamente, o gigante Ymir que é morto e cujo corpo cria o cosmos. Isso é paralelo à cosmologia Hindu, onde o sacrifício feito pelos Brâmanes renova um ser divino, cósmico, cujo corpo cria o universo. Embora nós não tenhamos um mito Celta da criação preservado em arquivos escritos e orais, creio que seria razoável pensar que o mito deles provavelmente seguisse esse mesmo padrão.

Se a criação requer morte e desmembramento para ocorrer, então seria de se compreender que somente o sacrifício de algo vivo seria capaz de realizar um sacrifício cosmológico. Isso não quer dizer que sacrifícios monetários, ou outros sacrifícios, não possam ser feitos sob outras circunstâncias. Eles obviamente eram feitos, e a partir do que outras pessoas aqui disseram, esse método continua sendo usado, embora mais em um contexto de presente para os Deuses do que de renovação do cosmos. Mauss diria que esse tipo de presente sacrificial cria um relacionamento mútuo entre os Deuses e a humanidade que requer um presente recíproco dos Deuses de inescassez de comida, abrigo e de outras substâncias necessárias à sobrevivência. Mas como eu havia dito, esses presentes trocados não renovam o cosmos em um sentido teológico. Eles servem para renovar laços de comunidades. Uma importante tarefa, para ser clara, mas não do ponto do sacrifício cosmológico.

Alguns antropólogos e historiadores têm especulado que ao sacrifício de animais seguia-se um período de sacrifícios de humanos como veículo da renovação cósmica. Nós sabemos que os Celtas sacrificavam prisioneiros de guerra e ocasionalmente outros humanos em alguns rituais, então eles não abandonaram completamente aquela fase de sacrifício. Creio que, nesse caso, talvez o que estejamos vendo sejam presentes para os Deuses, ou a troca de uma vida por outra no campo de batalha no caso de prisioneiros de guerra. Hipoteticamente falando, os guerreiros de “nossa tribo” eram bem sucedidos e poucos eram mortos, mas a guerra é uma arena de morte e certa perda de vida é esperada ou talvez jurada como uma parte da celebração da vitória, então prisioneiros da “tribo deles” eram sacrificados como uma substituição por “nossos” guerreiros ou como presentes para a deidade dos guerreiros. Outros sacrifícios humanos podem servir como mensageiros para os Deuses, carregando pedidos e informações que não podem ser confiados a oferendas menores. Um sacrifício humano, particularmente como um sacrifício de edificação, pode servir como guardião espiritual para a estrutura sendo construída. Mas em certo ponto, o sacrifício de animais parece ter se tornado um substituto para o sacrifício humano em cerimônias de renovação do cosmos, assim como em outros tipos de sacrifícios, e então isso parece ter sido precedente para mudanças consideráveis nesse tipo de ritual. Nós não estamos, então, buscando “uma desculpa para parar de executar sacrifícios”, mas sim um caminho teológico válido para transformar o sacrifício, mantendo ao mesmo tempo seu foco e impacto, como foi feito na suposta transformação de sacrifício humano para animal. Acredito que podemos discutir uma substituição valida para o corpo e alma de um animal.

Sabemos da história de Miach e Airmid, e da descrição de Alexei do herbalismo Bretão, que ervas eram associadas a diferentes partes do corpo – uma erva para cada articulação e tendão, assim era. Podemos dizer que o corpo pode ser criado, construído de ervas. Blodwedd é um exemplo de ser humana viva, magicamente criada a partir de nove tipos de ervas. Também sabemos de um texto médico galês medieval, e da tradição irlandesa, que o corpo é relacionado com o universo no pensamento Celta. Os olhos podem ser as estrelas, o sol ser a face, a respiração ser o vento, as rochas como ossos, a água como sangue, o solo como a carne, etc. Eu diria que através dessas associações, um corpo “humano” vivo pode ser criado de certas plantas ritualmente apropriadas para servir como veículo da renovação cósmica. Nesse caso, a morte e desmembramento do “corpo herbal” serviria como a força viva que é a origem da criação cósmica.

O sacrifício de plantas não deve ser invalidado como sacrifício de eficácia espiritual. As plantas têm espírito consciente, não menos que humanos ou animais. De fato, eu diria que as plantas são mais importantes que humanos ou animais no sentido biológico, pois sem plantas, a energia do sol não pode ser transformada em comida e nenhuma vida poderia existir sem elas. As plantas podem existir sem nós, mas sem elas não há possibilidade de vida animal independente. A força vital de uma planta pode, então, ser considerada tão pura e aceitável para o sacrifício como a vida de uma vaca, ou de um ser humano. Do ponto de vista da primazia, elas deveriam ser consideradas mais aceitáveis, mais puras, já que elas estão mais perto da fonte primordial da energia solar do que nós. Plantas individuais carecem somente da construção social do corpo humano completo para serem um aceitável substituto para o ser humano. Mas como nós vimos, isso pode ser feito através do ritual.

A questão torna-se, então, que plantas seriam apropriadas como sacrifício? Quantas, e o que elas devem simbolizar? Há diversas maneiras de abordarmos essa questão. Uma delas é examinar a lista das nove ervas das quais Blodwedd foi criada, sabendo que, juntas, elas serviram para criar um ser humano vivo. Nove, é claro, é um número ritual básico e significativo dentre o povo Celta. Ele é um número de perfeição e totalidade. Acredito que, sem levar em consideração que critério utilizamos para estabelecer uma lista de plantas apropriadas, elas deveriam ser nove em número.

Uma aproximação que poderíamos usar para escolher as plantas apropriadas é ver suas funções. Como um exemplo, plantas são usadas como comida (aveia), como remédio (dedaleira), como fibra (linho), como combustível (amieiro) e para alterar propriedades mentais (beladona). Podemos examinar a sabedoria herbal dos Celtas e escolher plantas dessas categorias que também representem as várias partes do corpo para usar como sacrifício. Plantas usadas como enteógenos me parecem perfeitamente apropriados para usar, simbolizando a alma da existência cósmica, por exemplo, ou para simbolizar a cabeça que é o assento da alma, e a abóbada dos céus. Plantas comestíveis podem simbolizar a carne. As medicinais podem servir para simbolizar diferentes partes do corpo, já que elas são usadas para lidar com diferentes órgãos e partes do corpo. Plantas fibrosas podem simbolizar o cabelo, ou a pele cobrindo o corpo. Plantas que servem como combustível podem representar a centelha da vida, mas elas podem, claro, ser usadas para queimar o sacrifício durante o ritual, então talvez elas não sejam necessárias na construção do corpo de ervas.

Fazendo esse tipo de sacrifício, acredito que as plantas devam ser frescas. A força vital deve estar nelas ainda, de modo que o sacrifício seja útil ou válido. Saindo e comprando raízes e folhas secas, elas simplesmente não contém as mesmas energias que cultivar ou colher as plantas apropriadas. Não pode ser um sacrifício de vida e espírito se o espírito e o poder da vida fresca se foi das plantas seis meses atrás. A falta de espírito invalidaria o sacrifício como um ritual significante, intencionando nos conectar com a necessidade de uma morte imediata e sensível em preparação para a criação cósmica. Existe pouco impacto emocional em queimar a poeira seca das folhas, enquanto a queima de plantas colhidas frescas nos conecta com a morte do ser verde. A seiva da vida deve estar correndo dentro delas, preferivelmente tendo sido colhidas em um ritual de não mais de um dia antes do sacrifício. Como o sacrifício de um animal ou ser humano, as plantas usadas devem estar livres de manchas, assim o mundo quando renovado será da mesma forma perfeito em corpo e potencial.

Embora na sabedoria Celta as associações de plantas com o corpo seja um conhecimento essencial, creio que também temos que considerar as implicações em tentar sacrificar plantas que não crescem naturalmente no solo nativo, sem contar a dificuldade de obter materiais frescos de ervas não-nativas. Que plantas locais carregam o mesmo significado simbólico que as plantas rituais da Europa Celta? Como Celtas modernos, espalhados por todo o globo e nascidos de diferentes bases étnicas, acredito que devemos renovar o cosmos local através do uso de plantas nativas para este tipo de sacrifício. Isso necessita observação atenta da sabedoria local das plantas, e o desenvolvimento de relacionamentos com os espíritos das plantas nativas, assim começamos a entender como elas se encaixam no corpo herbal. A criação de Blodwedd em Minnesota será diferente da criação em Gales, diferente também em Sydney ou em Vladivostok. Se nossa espiritualidade inclui uma profunda e verdadeira conexão com a terra em que vivemos, devemos levar essas coisas em consideração e desenvolver a teologia do lugar e o que Gary Snyder se refere como reabitação. A essência da terra onde vivemos deve penetrar em nós física e espiritualmente, deve nos conectar com os espíritos do local.

Alguns rituais necessitariam ser divididos para colher as nove diferentes plantas escolhidas e “dá-las à luz” juntas como um ser vivo, integral no sentido de um corpo cósmico e divino. Teríamos que transformá-las de um grupo separado de seres-planta no corpo divino do sacrifício, para unificar seus espíritos em uma única alma perfeita. Isso, é claro, não é necessário no caso de animais ou humanos, porque eles já são um único, separado, corpo e força vital.[1] O encantamento que cria Blodweed deve ser falado, assim como era. Deste ponto, o sacrifício pode preceder com o ritual de morte e desmembramento, com a queima das plantas para liberar o espírito-corpo e suas partes componentes no ato de renovação cósmica.

A próxima questão é: quem lida com esse tipo de sacrifício. Na sociedade Celta, os Druidas clamavam que eles haviam criado o universo, e através dessa forma de sacrifício, pode ser dito que eles de fato o fizeram. Druidas atuavam como sacerdotes sacrificadores de acordo com os Gregos e Romanos que os encontraram na Gália, e eram capazes de banir indivíduos do sacrifício se eles violassem as leis da tuath.[2] Entre os Hindus, são os Brâmanes que dirigem esses sacrifícios. O sacrifício cosmológico realmente é algo que pode ser conduzido em um molde igualitário, com qualquer celebrante de fora capaz de representar o papel do sacerdote/sacerdotisa sacrificador? Qualquer um que esteja ritualmente purificado será aceitável como sacrificador? Deverá o sacrificador ser alguém que nunca matou em batalha? Um que não tenha violado certas leis da terra? Se pessoas podem ser banidas da participação do sacrifício como observadores, isso mantém a razão de que alguns crimes certamente desqualificariam pessoas de realmente fazerem o sacrifício. Se essas coisas são importantes, deve ser exigido que aquele que regerá o sacrifício seja alguém identificado como Druida? Alguém que tenha, no mínimo, estudado a sabedoria e teologia celta o bastante para entender as implicações do sacrifício e da renovação? Se for um sacrifício animal ao invés de um sacrifício herbal, é também essencial que o sacrificador seja experiente na execução de animais, para que o sacrificado não sofra desnecessariamente.[3] É óbvio que algum treinamento seria, no mínimo, exigido para o efetivo sacrifício de um animal.

Qual deve ser, no ritual, o estado mental requerido do sacrificador? Obviamente, há muito mais nisso do que a ação de sacrificar. Realizar o ritual sem a intenção adequada e o estado de purificação espiritual adequado, seria mais sacrilégio do que sacrifício. Alcançar a intenção e o estado de pureza adequados é provavelmente trabalho de muitos anos de treinamento e meditação, e uma certa soma de ascese. Ao menos, deve ser capaz de conduzir o ritual enquanto mantém o devido estado mental e visualizações, sem cair em distrações. A forma externa do ritual deve ser feita impecavelmente, sem ler roteiros em pequenos papéis. A intenção e o foco dos assistentes e das testemunhas do ritual devem ser igualmente puros, no entanto, talvez, não tão rígidos quanto o estado daquele que irá fisicamente realizar o sacrifício. Qualquer coisa a menos pode danificar a renovação, se seguirmos a lógica do próprio ritual. Se levarmos isso a sério, essas considerações embatem a idéia de que qualquer um que queira pode realizar um sacrifício cosmológico, seja animal ou herbal, sem antes praticar intensamente ambas técnicas, externa e interna, e estudar as implicações teológicas.

 

 


[1] N.t.: Não confundir com a popular doutrina pertencente a algumas religiões de que plantas (ou animais) possuem alma coletiva. A autora deixa claro que as plantas, tanto quanto humanos e animais, possuem alma individual, no entanto, carecem da composição corporal semelhante, necessária ao sacrifício, já que esse mesmo sacrifício é uma substituição ao sacrifício humano.

 

[2] N.t.: Tuath significa tribo.

 

[3] N.t.: Dentre as comunidades Reconstrucionistas Celtas, especialmente as rurais, o sacrifício animal não foi banido, como no neo-druidismo em geral. Muitos RCs sacrificam seus animais em rituais, honrando suas almas, especialmente por não concordarem com os atuais métodos de abate, já que só se sacrificam os animais que servirão de alimento para a comunidade.